YOGA E MEDITAÇÃO EM CAMPINAS

13 de nov de 2013

Desenvolvendo sua prática pessoal de Asthanga Vinyasa Yoga

Por Vanessa Malagó

Escrevi recentemente dois artigos que tratam sobre a importância de se ter uma prática pessoal de yoga e como começar a desenvolvê-la. Hoje abordarei novamente esse tema, mas sobre a perspectiva de um praticante de ashtanga vinyasa yoga. Sugiro que antes ou depois da leitura desse artigo, você dê uma olhada nesses dois outros textos, que são complementares ao que abordaremos agora: 
A importância de ter uma prática pessoal de yoga
Como desenvolver sua prática pessoal de yoga
A grande dúvida que os praticantes se deparam quando decidem iniciar uma prática em casa é como construir uma sequência equilibrada de posturas. No caso do ashtanga vinyasa yoga, trabalhamos com séries fixas de posturas, o que pode facilitar a vida de quem quer começar sua prática pessoal em casa.

As aulas no estilo Mysore, como o método é ensinado tradicionalmente, em que cada aluno vai construindo a sequência em seu próprio ritmo, oferece também ao praticante uma maior autonomia em relação às aulas guiadas.  Esse é um aspecto importante dessa metodologia,  que permite ao praticante vivenciar a prática de uma forma bastante pessoal e única. Diferente de um aluno que é conduzido a cada aula, aqui o aluno é quem assume a condução e o ritmo, o que o coloca numa postura mais ativa e responsável diante de sua própria prática.


Quem está acostumado a uma aula Mysore normalmente enfrenta menos dificuldade para começar a sua prática em casa. Você já sabe por onde começar e já está acostumado a conduzir sua própria prática. Por outro lado, por ser uma prática bastante vigorosa e relativamente longa, pode se sentir desencorajado. Instituir uma nova rotina é sempre um desafio e independente da modalidade de yoga que se faça, vale a mesma dica: comece devagar. Pode até ser que você consiga reservar 1h30 a 1h45 para fazer sua prática, mas se isso já não faz parte de sua rotina regular, é bem possível que essa iniciativa só dure nas primeiras semanas. Assim para não deixar esse entusiasmo inicial se esmorecer, sugiro que você reserve um tempo menor de início para praticar, mas realmente se comprometa com ele nos primeiros meses. Assim você construirá uma rotina e poderá gradualmente ir aumentando seu tempo de prática.

Alguns alunos deixam de lado a ideia de iniciar uma prática em casa por não disporem do tempo necessário para fazer a sequencia toda. Em minha opinião se você tiver 15 minutos apenas, já está valendo.  

Mas aí, não tendo como executar toda a sequência, vem a mente a mesma dúvida que abate todos que se propõe a iniciar uma prática em casa: o que praticar? Se você começar com 15 minutos, não se preocupe com a sequência, você poderá fazer algumas saudações ao sol como aquecimento e depois trabalhar um pequeno grupo de posturas ou então dedicar esse tempo para algum exercício respiratório ou técnica de concentração. A prática a ser realizada vai depender muito de cada pessoa e o seu professor, conhecendo suas dificuldades e necessidades, certamente poderá lhe ajudar nisso, recomendando o que pode ser mais interessante para você fazer de início.

À medida que você vai aumentando o tempo de prática, pode começar a trabalhar com partes da sequência. Se você tem em torno de 45 minutos para praticar em casa, pode fazer as saudações ao sol, as posturas de pé ou parte delas e depois fazer as posturas finais.

No tempo que você dedica para sua prática pessoal pode ser interessante também explorar algumas coisas de forma diferente. Quando você faz aula com um professor, ele provavelmente lhe dará orientações sobre alinhamento, em que distância afastar seus pés, como posicionar os braços, etc. Você pode dedicar alguns dias da sua prática em casa para brincar e explorar o alinhamento nas posturas.  A proposta do yoga é nos tirar do automático, nos trazer um estado de presença. Mas mesmo em nossa prática podemos cair na cilada de fazer tudo automaticamente. Nesse sentido é importante nos questionarmos quanto ao porquê de determinado alinhamento, por exemplo. Não se contente com um “ Essa postura deve ser feita dessa forma, porque é assim que é ensinada pelo Guruji...”

Isso pode em certo ponto chocar os “tradicionalistas”, mas acredito que é importante encontrarmos nossas próprias respostas. Não quero dizer com isso que não devamos seguir as orientações que nos são dados por nossos professores. Pelo contrário, é importante estar aberto a experimentar. Numa aula é importante ouvir e respeitar o que seu professor tem a lhe ensinar. Faça o que ele lhe propõe, mas sempre com esse estado de presença, observando, sentindo. Que sensações a postura te traz com esse alinhamento? Que partes do seu corpo você sente serem acionadas?

À medida que você ganha mais experiência com a prática e consegue trabalhar com as posturas de forma relativamente segura, vale a pena quebrar paradigmas e explorar uma postura que você conhece de forma diferente em sua prática pessoal. A Trikonasana, por exemplo, é uma postura que é executada de forma diferente no Iyengar Yoga e no Ashtanga Vinyasa. Na prática de Iyengar os pés ficam bem mais afastados do que na de Ashtanga. Alguns alunos às vezes me perguntam: Qual a forma correta de se fazer essa postura? E a resposta é: não há uma única forma para se fazer a postura e as duas posturas estão corretas, dependendo do que se quer atingir. As intenções e as sensações produzidas pelas duas posturas são diferentes.

Traga para sua prática pessoal esses questionamentos e esse tipo de investigação.  No ashtanga normalmente fazemos a postura do lótus, trazendo o pé esquerdo em cima do direito. E se eu fizer o lótus diferente, como sinto isso na minha prática? Em minha prática pessoal sempre procuro explorar essas possibilidades. Por que as posturas do ashtanga são feitas nessa sequência? E se eu mudar a ordem de alguma postura, o que acontece? E se deixar minha respiração mais longa? O que acontece se fizer a sequência intensificando a respiração ujjayi? E se deixá-la mais suave?


Outro ponto que pode ser explorado em sua prática pessoal é o tempo que você permanece em cada postura. Nas aulas você recebe a orientação para permanecer nas posturas por um determinado número de respirações. Esse número é uma referência básica para ser seguida numa aula. Isso não significa que você deva sempre trabalhar a mesma permanência. Estando sintonizado com seu corpo e seu estado interno, você poderá perceber que em alguns dias, pode ser bom variar essa permanência. Se você quer dar ênfase a uma postura que lhe parece mais desafiadora, pode ampliar essa permanência. Mesmo numa postura que é feita do lado direito e esquerdo, pode ser interessante variar o tempo que se permanece de cada lado. Se você perceber, por exemplo, que tem um lado mais fraco ou menos flexível que o outro, pode dedicar mais tempo nesse lado do que no outro para buscar fortalecê-lo e assim, equilibrar melhor os dois lados. Se você se sente meio aéreo, por exemplo, precisando aterrar-se, pode ser interessante dedicar mais tempo às saudações ao sol e posturas de pé da sequência. Se está se sentindo mais cansado, então pode dedicar mais tempo a algumas a algumas posturas invertidas, que tem efeito restaurador.


Você vai sentir que mesmo trabalhando uma sequência fixa de posturas, terá a cada dia uma prática bem diferente da outra. Até porque a cada dia estamos de um jeito diferente. De tudo que tratamos até agora deu pra perceber que desenvolver sua prática pessoal de ashtanga não é simplesmente repetir em casa uma sequência que você aprendeu em aula, mas usá-la como um instrumento para o seu autoconhecimento.  E é quando estamos nessa sintonia, que vem o “flow”, um estado prazeroso, de concentração absoluta, como uma meditação em movimento.