YOGA E MEDITAÇÃO EM CAMPINAS

15 de abr de 2016

Obstáculos no caminho do Yoga

Obstáculos
Por Olga Rodrigues*

Quando iniciamos o caminho do Yoga e vemos a diferença que faz no nosso dia-a-dia, nos enchemos de entusiasmo, com vontade de descobrir mais e mais. Nesse primeiro momento, estamos dispostos a fazer sacrifícios e alterações na nossa rotina, tudo pela nova paixão. Mas, com o tempo, surgem alguns obstáculos que nos fazem estancar, retroceder e até abandonar a prática. Quem nunca se viu num momento difícil, em que seria mais fácil esquecer o Yoga? 

Os desafios são muitos e surgem em diferentes formas e de diversas fontes. Ás vezes, são questões sobre as quais temos pouco controle, como uma doença. Outras, condições externas que põem a prova nossa determinação, como a chegada do frio. E ás vezes, são artimanhas da mente teimosa que persiste em padrões de auto-sabotagem. Seja como for, o importante é entender que tudo isso faz parte do caminho a que nos propusemos quando nos dedicamos ao Yoga. A prática é apenas um espelho da nossa vida e não será sempre perfeita ou prazerosa. É nos momentos que surgem os obstáculos que temos as maiores oportunidades de transformação e exatamente quando não devemos parar. Se aprendermos a lidar com eles, levaremos essa lição para a vida. 

Esses obstáculos são tão antigos e universais que Patanjali já os referia nos Yoga Sutras, tendo mencionado nove: Viadhy (doença), Styana (falta de preserverança), Samshaya (dúvida), Pramada (negligência), Alasya (preguiça), Avirati (gratificação sensorial), Brantidarshan (percepção equivocada), Alabdha-bhumikatva (incapacidade de progredir), Anavasthitatvani (incapacidade de manter o progresso alcançado).

Viadhy, a doença física ou mental, pode ser um impedimento bem forte, nos obrigando a parar. Quando retomamos a prática após uma doença que nos derrubou, devemos começar devagar, respeitando e sentindo os limites do nosso corpo. Também as lesões são reais e não devemos ignorar a dor. Mas uma lesão nem sempre obriga a parar de praticar ou executar determinadas posturas. Na maior parte das vezes, aquelas em que se sente dor podem ser modificadas. Nesse momento, podemos “conversar” com o músculo ou articulação afetada, perguntando onde dói e parando antes desse ponto. Não só é um excelente exercício de aceitação como nos leva a ganhar consciência corporal.  Ao mesmo tempo, ao não pararmos de trabalhar com a parte lesionada, aumentamos a circulação de sangue e linfa para a mesma e por consequência, o aporte de oxigênio e nutrientes, o que facilitará a recuperação. Se simplesmente pararmos de mexer aquela parte do corpo, esta receberá a mensagem de que deve ficar quieta e assim o fará. Também é importante entender a diferença entre a dor de uma lesão e a dor causada por um bloqueio, em que o corpo transmite um acúmulo de emoções estagnadas. Essas são talvez as que mais nos dão vontade de desistir, porque trazem consigo anos de medo, frustrações, raivas ou mágoas. No entanto, não é exatamente necessário entender as emoções que são a raiz da dor, até porque isso pode levar a uma racionalização excessiva do processo de liberação, interrompendo-o. Trabalhando com amor e com a respiração, esses bloqueios começarão a se desfazer.
Outro obstáculo de ordem física é Alasya, a preguiça, com que até a pessoa mais cheia de energia lida de vez em quando. É o conforto da cama que nos chama na madrugada, a vontade de ficar no sofá. É algo natural, inerente ao ser humano. O problema é quando nos impede de fazer o que sabemos que nos faz bem. É normalmente fruto de Tamas, a energia da escuridão e da inércia, que podemos estar alimentando, sem saber, através de dieta e estilo de vida. Comidas tamásicas, que embotam mente e corpo como carne vermelha, álcool e drogas, sejam elas estimulantes ou sedativas, um estilo de vida demasiado sedentário, com foco no prazer, hábitos noctívagos e até mesmo o tipo de arte que cultiva a escuridão, só vão aumentar essa energia dentro de nós, criando confusão, resistência à mudança e apatia.

Tamas pode estar também na origem de outro obstáculo, Styana, a preguiça mental. É essa tendência a procrastinação, a dificuldade de persistir, esse “ah, deixa para lá...” que tantas vezes toma conta de nós. Sabemos por experiência, que ir praticar nos fará sentir bem, mas adiamos. É uma estratégia do ego para não ter que modificar os padrões aos quais está acostumado, assim como da mente, que não quer ser controlada. Aí entra Tapas, o fogo da autodisciplina, tanto para a preguiça física como mental. É ele que nos faz sair da zona de conforto, que nos dá o impulso para sairmos da letargia. Uma boa estratégia para enganar mente e corpos preguiçosos é se propor a fazer algo, nem que seja pouco. Por exemplo, cinco Surya Namaskar e cinco B, ou cantar um mantra curto. O mais provável é que depois do motor colocado em marcha se torne mais fácil continuar.
Assim como Styana, Samshaya, a dúvida, é uma artimanha do ego e da mente para nos distrair do nosso objetivo. Não é que essas duas partes da consciência sejam malvadas, mas são como crianças mimadas, que focam no imediato e agradável. Não têm paciência para ficar alterando a estrutura existente, mesmo que ela resulte em frustrações, ou para ficar focando numa coisa só como a respiração, durante 2 horas seguidas. Querem distração, diversão, resultados rápidos. Quando isso não acontece, surge a ideia de que existe algum problema. Como sempre, tendemos a achar que existe algo de errado quando as coisas não correm como queremos. Podemos achar que o problema é nosso, focando nas dores que sentimos ou na própria anatomia. É o músculo encurtado, o joelho que sempre dói, o ombro fechado, tudo identificações erradas, que geram dúvida: para quê praticar, se nunca vou ultrapassar isso? Surge também a comparação com os outros: com o que evolui mais rápido, com o que tem o corpo mais aberto ou forte, com o que tem mais disciplina, o que for. A verdade é que o ego não resiste à comparação, porque é uma ótima desculpa para não ter que evoluir. Ou colocamos o problema no exterior: será que o Yoga é para mim? Será que há algo melhor? E se eu tentasse outra aula? Outro professor? Enquanto vamos pulando de aula em aula, método em método ou até de atividade em atividade, não temos que lidar com o que nos assusta.  O novo deslumbra, toma nossa atenção e nossas frustrações ficam latentes, mas caladas. Não se trata de abandonar o questionamento, que é fundamental, mas de persistir em algo o tempo necessário para que realmente possamos sentir seu benefício. A dúvida é algo tão constante na nossa vida, que se desistirmos de algo sempre que duvidamos, apenas teremos instabilidade e gastaremos mais energia a mudar a forma do que a nos aprofundarmos no conteúdo. A dúvida se acalma quando pensamos com o coração e seguimos aquilo que nos faz realmente bem.

Agora você pode estar pensando: dormir até tarde me faz bem, comer batata frita me faz bem, beber álcool me faz bem. Afinal, eu me divirto fazendo tudo isso. Primeiro, precisamos distinguir o que nos faz bem do que nos faz sentir bem. Por isso Avirati, gratificação sensorial ou falta de moderação, é um obstáculo: porque nos confunde, nos faz ir somente em busca do prazer. Este não é danoso por si, o problema é o apego que temos por ele. Até o apego a uma prática prazerosa pode ser prejudicial, se formos cada dia com essa expectativa e nos frustramos quando não é correspondida. Nenhum problema em gostar de sorvete de chocolate, mas e se desesperarmos quando não podemos comer? Ou se não conseguirmos comer outra coisa? Ou se comermos mesmo de cama com uma gripe forte e neve lá fora, sabendo que a nossa garganta vai doer depois? Talvez todo esse nosso amor por sorvete de chocolate esteja começando a nos fazer mais mal que bem. É aí que se faz necessária a observação de como reagimos quando não temos o prazer, do quanto estamos dispostos a abdicar para ter esse prazer, o que representa para nós. Porque muitas vezes, mais do que somente a gratificação imediata do desejo atendido, existe algo por trás, algo mais profundo. Tanto pode ser uma emoção com que não conseguimos lidar, em que se come o sorvete por ansiedade, como uma identificação errônea com determinados papeis que assumimos ao longe da vida e dos quais não nos conseguimos soltar. O boêmio, o bom gourmand, o preguiçoso que dorme até tarde, a máquina sexual... Tudo rótulos que nos prendem, mas que ao mesmo tempo nos dão segurança de sabermos quem somos. Sem eles, resta todo um vazio. Afinal, no vazio reside todo o potencial do Universo. Então, a proposta aqui não é ficar na austeridade ou abdicar do prazer, mas entender que esse é momentâneo, o quanto ele nos traz e se vale sacrificarmos algo que em longo prazo nos trará mais benefícios e mais bem-estar. 

Pramada é a negligência, a falta de cuidado. Se praticarmos sem atenção, não só não evoluiremos como ainda podemos causar danos. Colocar nossa atenção no que fazemos é a base para uma vida mais consciente. A prática nos ensina isso, mas também podemos praticar sem atenção. Seja lavando os pratos, seja fazendo asanas ou meditando, se não tivermos cuidado com o que estamos fazendo, o resultado será sempre o mesmo: a vida passa por nós como um filme, em que nos remetemos ao lugar de espectador, sem muita participação no que acontece. No entanto, como em tudo, o equilíbrio está no meio. Abordamos a prática com respeito e devoção, mas não precisamos ficar obcecados quanto a seus detalhes. A excessiva preocupação com questões como o alinhamento, enche nossa mente de questões, nos tira do momento e em última instância, é apenas mais uma distração como as outras.

Os últimos três obstáculos são muito comuns depois de um tempo praticando e talvez em si mesmos, constituam fases do processo de evolução no Yoga. O primeiro é Brantidarshan, a visão errônea e prematura que já sabemos do que se trata o Yoga. No momento em que julgamos saber tudo é exatamente quando estamos mais longe da verdade, quando perdemos toda a humildade. Aí surge o julgamento, a visão fechada de que há só um jeito de fazer as coisas (o nosso, claro), a arrogância e a inflexibilidade. E porque o resto do mundo não se vai render a nossa supremacia iluminada, existe o perigo de nos julgarmos incompreendidos, nos isolarmos e nos afastarmos da prática. 

O segundo é Alabdhabhumitatva, a incapacidade de avançar. Acontece muitas vezes que um praticante evolui rapidamente e logo esse processo abranda ou para. É o famoso plateâu, e pode ser desesperador, se não lidarmos com ele com paciência. Persistindo, mesmo com passos de tartaruga, guiados pelo Dharma, reafirmamos nosso caminho cada dia. O avanço pode ser imperceptível, mas continua acontecendo. E não se trata aqui somente de evolução nas posturas, mas também enquanto pessoas.

O terceiro é Anavasthitatvam, que é a incapacidade de manter o progresso alcançado, que pode acontecer por instabilidade. De novo, a dúvida, a inconstância, a necessidade de alterar a forma, nos fazem perder o fio condutor. Se não mantemos uma constância na prática e aparecemos só de vez em quando, estaremos continuamente reiniciando um processo. É como uma escada que temos que subir, mas em que estamos constantemente voltando para o primeiro lance de degraus.

Dos nove obstáculos primários, vêm quatro secundários: Dukha (sofrimento), Daurmanasya (frustração), Angamejayatva (tremores) e Svasaprashvasa (respiração irregular). Podemos facilmente visualizar como todos os obstáculos se complementam e sucedem, se não tivermos a força para lidar com eles. Num exemplo aleatório, da preguiça vem a dúvida, que nos faz respirar irregularmente, causando dor, que nos leva a frustração, que faz com que não consigamos avançar, que nos leva a negligenciar nossa prática, o que causa uma lesão, que leva a inércia. Esse é só um dos cenários possíveis. Cabe-nos romper esses ciclos, entender que todos esses desafios fazem parte do caminho que escolhemos. Patanjali segue por vários sutras, descrevendo formas de ultrapassar esses obstáculos, mas qual a primeira? Concentrar-se numa coisa só. Por isso, escolha uma prática e persista nela. Diferentes métodos, diferentes aulas, fazer um Japa ou uma sequencia de Asanas, tudo são ramos de uma mesma árvore, com os mesmos frutos por colher.  

Um conto antigo narra a história de um homem que se perdeu no deserto. Estava morrendo de sede, quando passou uma caravana da qual saiu um grupo de pessoas, que logo veio ao seu encontro. Ele murmurou: “Água, água, por favor”. Mas as pessoas perguntaram: Queria diretamente do copo ou era melhor do cantil? Ou seria melhor uma xícara? Poderia ser de cristal ou era melhor de prata? Um cálice seria suficiente? Enquanto o grupo se debatia com estas questões, travando uma discussão acesa sobre como seria preferível servir a água, o homem deu o último suspiro, morrendo de sede. Esta história ilustra a facilidade com que nos prendemos a coisas banais e nos distraímos com questões insignificantes. Enquanto nos debatemos com detalhes, ignoramos o essencial: a nossa sede de liberação, o que afinal nos trouxe até ao Yoga.  E isso não é algo exclusivo a algumas pessoas, todos nós, em diferentes momentos, passamos por isso. 

Então, esse texto é para quem está passando por um momento difícil e não consegue praticar sem que o pensamento voe. Para quem está pensando em desistir porque perdeu o entusiasmo inicial. Para quem não está conseguindo acordar no frio do Inverno. Para quem parou por uma questão importante como um problema de saúde e está se deparando com a dificuldade de recomeçar. Para quem se sente atraído pelo Yoga mas se acha muito duro para isso. Para quem pratica todos os dias e se culpa pelas vezes que não tem vontade de ir. Para quem está tendo dificuldade de conciliar uma vida social agitada com os horários de prática.  Para quem sente que não avança, por mais que pratique. Para quem pratica com o tempo contado, porque tem que levar o filho na escola ou ir para o trabalho e se questiona se vale a pena. Para quem começou agora e está sentindo que finalmente está no caminho certo, apaixonado pela descoberta. É para todos nós. Porque os obstáculos são inevitáveis e vão aparecer no Yoga, mas também na nossa vida, muitas mais vezes do que gostaríamos. Até o praticante mais avançado os encontrará. O que podemos transformar é a forma como lidamos com eles, alimentar essa capacidade de nos superarmos a cada momento, de irmos mais longe do que alguma vez pensamos. E lembrarmos que a pedra no caminho terá sempre o tamanho exato do passo que estivermos prontos para dar.

 * Olga Rodrigues é professora de yoga em Santa Catarina, no Ashtanga YogaFloripa.