YOGA E MEDITAÇÃO EM CAMPINAS

8 de abr de 2014

Yoga e Menstruação II

Esse é o segundo artigo da série que aborda o tema Yoga e Menstruação. Publicado originalmente na Revista Yoga Journal, o artigo é de autoria de Patrícia Ribeiro.

Tempo de se Recolher*

Em várias culturas antigas, o ciclo menstrual feminino era visto como algo sagrado. Lua, sangue e mulher sempre estiveram relacionados, já que a palavra mensis, em latim, quer dizer mês, que está associada aos ciclos da lua. Todo mês, a lua cresce, fica cheia e depois passa pela fase minguante até escurecer completamente. É assim que acontece com o corpo da mulher, que passa por vários ciclos em decorrência das mudanças hormonais. Em várias civilizações, acreditava-se que o período em que ela ficava menstruada era um tempo para o recolhimento, quando elas se retiravam para realizarem rituais, para se conectar com a essência feminina, com a Mãe Terra e se purificar. Nas aulas de Yoga, é muito comum que os professores poupem as alunas das posturas invertidas quando elas estão no período menstrual, contudo não há um consenso entre eles se realmente esses asanas devem ser praticados ou não.

Geeta Iyengar, filha do mestre B.K.S. Iyengar, é radical e acredita que as mulheres não devem fazer posturas invertidas e nem práticas de asanas fortes. Para esses dias, ela recomenda uma série de posturas restaurativas e relaxantes. Muitos professores têm a mesma opinião. No Surya Yoga, em São Paulo, as mulheres menstruadas recebem uma seqüência exclusiva e praticam separadas do grupo. Marina Athanas, que dá aulas de Iyengar Yoga no Surya, explica que há posturas para iniciantes em que são auxiliadas pela professora e para alunas avançadas, que fazem sozinhas. “Uma seqüência de flexões para frente com um apoio na cabeça relaxa o sistema nervoso, o uso de props alivia as cólicas e massageia os órgãos reprodutores. As posturas invertidas não são indicadas porque se obstrui um fluxo que deve sair, assim como as torções e retroflexões, que são posturas muito fortes”. Mesmo para aquelas que dizem não sentir nenhum desconforto, ela recomenda práticas mais suaves. “É uma fase em que a mulher deve voltar-se à essência feminina, preservar-se e sentir as sensações do corpo”. No segundo ou terceiro dia, quando o fluxo menstrual é menos intenso, a professora inclui algumas posturas em pé.


No Nirvana, no Rio de Janeiro, as alunas menstruadas também recebem uma seqüência para esse período com asanas que trazem conforto para a região abdominal, pélvica e lombar como baddha konasana, supta badhakonasana, upavistha konasana, setubanda sarvangasana com apoio para os pés e região sacral, supta virasana e flexões para a frente com apoio da cabeça. A professora e fundadora do Nirvana, Isabela Fortes, que faz cursos em Pune, no Ramamani Memorial Yoga Institute, lembra que esse não é o momento para aumentar flexibilidade ou ganhar força. Sendo assim, as posturas devem ser feitas para trazer conforto, sem a ambição de melhorar a performance. “Se a aluna tiver ciclos normais, não sentir nenhum desconforto e tiver uma prática regular de Yoga, ela poderá fazer algumas posturas em pé sem muita manutenção: utthita trikonasana, utthita parsvakonasana, virabadhrasana II, parvottanasana com as mãos apoiadas na parede e ardha chandrasana com o apoio da parede.

De acordo com Isabela, não só as invertidas devem ser evitadas, mas também deve-se evitar tudo aquilo que vá contra o movimento de eliminação do corpo. “Dizem que essas posturas invertem o fluxo, mas o fluxo que os yogis querem evitar é o de alterar o movimento dos vayus ou os ventos do corpo. Durante a menstruação, o organismo está fazendo um esforço enorme para retornar o útero às condições normais, desfazendo todo um processo que foi criado para receber um bebê. As paredes uterinas se escamam, existe um processo físico real ocorrendo e ele deve ser respeitado. Mas existe um processo sutil também que depende do bom funcionamento do apana vayu (alento vital que controla os processos de excreção). Na prática, é bom evitar todas as invertidas, asanas muito vigorosos como urdhva mukha svanasana e urdhva dhanurasana, evitar o uso de uddiyana bandha, chaturanga dandasana, torções em geral e trabalhos abdominais como jatara parivartanasana, navasana, equilíbrio sobre as mãos e saltos. Mas o professor deve saber orientar a prática para as particularidades de cada aluna”, avalia.

No Ashtanga Yoga Research Institute, de Pattabhi Jois, na Índia, as mulheres não podem praticar nos três primeiros dias da menstruação. Maurício Wolff e Cathia Karin Heuser, do Mangalam Estúdio de Porto Alegre, estiveram lá o ano passado e explicam que isso faz parte do modo de pensar do país. “O exato motivo perde-se na cultura indiana, na qual até algumas décadas atrás a mulher no seu período menstrual deixava de fazer várias coisas em casa. Ainda hoje, na casa da "nossa família indiana", quando há uma mulher no período menstrual, ninguém entra na sala de oferendas, ela não entra na cozinha e deixa de fazer algumas atividades”, conta Maurício. Ele acredita que no Ocidente as mulheres estão há tempos desconectadas deste tipo de tradição presente nas culturas antigas, portanto, ela pode decidir se deve ou não praticar. “Em Ashtanga, a rigor, não se pratica nos três primeiros dias. Informamos isso e recomendamos que a mulher experimente e decida por si”, diz.

A professora de Iyengar do Yoga Flow Lilly Hastings, que posou para as fotos da matéria, pratica normalmente no período evitando apenas as invertidas: "Passo bem no período menstrual, é raríssimo sentir cólicas ou inchar. Posso ter mais sono alguns dias antes e sentir-me mais sensível. Outras vezes não, sinto-me tão disposta que dá vontade de praticar normalmente, apenas evitando torções, retroflexões fortes e posturas invertidas. Mas se o organismo quer descanso, relaxamento e aconchego, ah...nesse caso, seqüências restauradoras, com posturas especialmente adaptadas para esse momento, são de fato maravilhosas! "

Polêmica
Nem todos concordam com a idéia do recolhimento, da reserva durante o ciclo menstrual. O professor de Hatha Yoga Rui Afonso, que faz mestrado sobre Yoga e Menopausa na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acredita que não praticar as invertidas durante o período menstrual é um daqueles mitos de que a mulher não pode fazer várias coisas como lavar a cabeça, fazer esportes, etc. “Faz pouco tempo que o Hatha Yoga começou a ser praticado por mulheres. Naquele tempo, não se sabia muito sobre o assunto e havia muitas crendices sobre menstruação como há até hoje na Índia. Nos principais textos como o Hatha Yoga Pradipika não há nenhuma referência sobre o assunto, logo, acredito que não haja contra-indicação”.


Segundo ele, não há nenhuma diferença na pressão intra-abdominal enquanto se pratica as invertidas, como não tem nenhum aumento significativo na pressão e o fluxo fica interrompido pela ação da gravidade durante o tempo da invertida. Logo quando a mulher volta à posição normal, o fluxo se normaliza. “Eu sempre oriento para minhas alunas a experimentar. Se elas sentirem algum desconforto, melhor que não façam; caso contrário, podem fazer. Para saber mesmo se causa algum problema, só fazendo uma pesquisa científica que comprove os efeitos das invertidas durante a menstruação”, diz.

Os especialistas não têm nenhuma contra-indicação do ponto de vista científico para a prática de invertidas durante o período menstrual. O ginecologista Marco Antonio Lenci, que atende no Hospital Albert Einsten (SP), acredita que qualquer atividade física que traz prazer à mulher é necessária, principalmente quando ela está menstruada. “Caso alguma teoria médica tente explicar e/ou contra-indicar um exercício de Yoga, a resposta que a mulher apresenta na sua prática é a melhor referência. O que fizer bem para a alma, ou seja, para o seu eu, possivelmente fará bem para o corpo”, afirma.

Para o ginecologista Dirceu Henrique Mendes, adepto da abordagem holística nas doenças femininas, que atende na Clínica e Centro de Pesquisa de Reprodução Humana Roger Abdel Massih (SP), não há nenhum problema em praticar Yoga durante esse período. “Na fase pré-menstrual há o predomínio de progesterona, hormônio que leva a mulher para uma vida mais introspectiva e menos social. Deve-se respeitar essa fase não exigindo demais do seu corpo. As posturas invertidas de Yoga não são desaconselhadas”, diz.

Dra. Ruth Clapauch, diretora de cursos do Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) do Rio de Janeiro, concorda com os ginecologistas. “Exercícios como o Yoga são bons, porque liberam as endorfinas que proporcionam a sensação de bem-estar. Não há nenhum cuidado especial em fazer invertidas desde que a mulher sinta-se bem, sem dor ou desconforto”.

Se não existe um consenso entre médicos e professores de Yoga sobre praticar Yoga e invertidas no período menstrual, a conclusão é que se deve usar o bom senso, escutar e respeitar o corpo. Isabela Fortes recomenda: “É um período para descansar mais, ficar mais introspectiva e se permitir ter uma menstruação como uma mulher real, e não como mulher maravilha. Sim, ficamos mais sensíveis emocionalmente, fisicamente e até espiritualmente. Observe que digo “sensível”, e não necessariamente fraca ou doente. Mas entender que é tempo de se recolher e permitir ao corpo que elimine tudo o que precisa ser eliminado, alimentar-se com comidas saudáveis, beber bastante líquido e ficar quietinha. Fazendo isto, ajudamos a ter um período menstrual tranqüilo e uma maior saúde e longevidade”, completa.

Endometriose
Cólicas muito fortes e sangramentos muito intensos podem ser indícios que alguma coisa esteja errada. Neste caso, é melhor consultar um especialista para saber se você tem endometriose. Os outros sintomas são náuseas, vômitos imediatamente antes da menstruação, dor durante a relação sexual, diarréia, prisão de ventre ou dor durante a evacuação e sangue nas fezes ou na urina durante a menstruação.


As causas são desconhecidas, mas existem algumas hipóteses. Uma delas é a teoria da menstruação retrógrada. Acredita-se que o sangue menstrual flua no sentido contrário ao do útero passando pelas tubas de Falópio, transportando as células do endométrio para outras regiões do abdome que são semeadas e crescem. A outra teoria é que a endometriose é inata, o que implicaria no fato de algumas células do endométrio já estarem fora do útero desde o nascimento da mulher. Por último, existe uma corrente que acredita que a doença possa ser causada por uma deficiência do sistema imunológico, que não conseguiria destruir células fora do lugar.

Na endometriose, pedaços do revestimento do útero (endométrio) deslocam-se para fora do útero e ficam grudados em outros tecidos abdominais, muitas vezes nos ovários, nos ligamentos uterinos ou no intestino. Todo mês, quando o estrogênio e outros hormônios induzem um espessamento do revestimento uterino, essas células externas também se expandem e o tecido uterino depois descama normalmente. Entretanto, as células deslocadas não têm um local para liberar o sangue acumulado e, com isso, são gerados cistos, cicatrizes e aderências. Apesar de nem todas as mulheres apresentarem sintomas, a endometriose pode provocar muita dor e é a principal causa da infertilidade feminina.

O Yoga também pode ajudar as mulheres com endometriose. Segundo Isabela Fortes, ela deve seguir as mesmas recomendações das mulheres menstruadas, ou seja, evitar práticas fortes como Ashtanga Vinyasa Yoga e posturas que coloquem muita pressão na região abdominal e torções fortes. Os asanas indicados são aqueles que alonguem a coluna, e, conseqüentemente, aumentem o espaço entre a cintura pélvica e a caixa torácica, permitindo que os órgãos internos tenham bastante espaço para trabalhar. “Posturas restaurativas são excelentes, pois, além de energizar o corpo, acalmam o sistema nervoso e dão suporte emocional para mulheres com este quadro”, completa.

Cuidados alimentares também devem fazer parte do tratamento da doença. Dr. Dirceu que recomenda uma dieta nutricional balanceada evitando doces e outros carboidratos refinados e gordura saturada e o aumento de consumo de frutas, hortaliças, legumes e gordura rica em ômega 3 (semente linhaça, peixes de águas profundas, algas etc.), laticínios acidificados como iogurte e coalhada, pois contêm lactobacilos que equilibram a flora bacteriana intestinal.

A endometriose é uma doença crônica recorrente e escolher um tratamento adequado é difícil. Um tratamento com medicamentos ou cirurgia, embora sejam eficientes no controle da doença e dos sintomas, não são a solução definitiva, pois há chance de a doença voltar em 50% no prazo de cinco anos. A escolha dependerá de vários fatores, como a gravidade da doença, as expectativas quanto à fertilidade, sintomas como dores pélvicas, efeitos colaterais dos tratamentos e de seus custos.

Pesquisas recentes feitas na Clínica Maio, em Rochester, Minnesota, estudaram 145 mulheres e os médicos descobriram que a ablação endometrial, um tratamento para fluxo menstrual muito intenso – um dos sintomas da endometriose –, é eficaz para todas as mulheres, inclusive para aquelas que têm disfunções básicas do fluxo menstrual. A ablação endometrial funciona destruindo o revestimento do útero com calor, eletricidade ou congelamento. Vários relatórios mostram que este método é eficaz para fluxo intenso (menorragia), mas havia poucos estudos sobre as mulheres com outras disfunções. Os resultados foram publicados no periódico norte-americano de Obstetrícia e Ginecologia.

O estudo da doença é de extrema importância para tratá-la. Com o objetivo de reunir informações sobre o tema, Eleuze Mendonça fundou a Associação Brasileira de Endometriose (Abend). A associação esclarece a comunidade sobre a doença, promove assistência médica e psicológica, divulga estudos e tratamentos e promove uma rede de apoio entre as portadoras da doença.

Mulher é bicho esquisito
Como já cantava Rita Lee, “mulher é bicho esquisito/ todo mês sangra” , trazendo várias alterações hormonais no corpo feminino. As causas de problemas hormonais e disfunções menstruais são variadas e podem estar também relacionadas com fatores genéticos, alimentação e estilo de vida.


Para Dr. Dirceu Henrique Mendes, a alimentação exerce um papel importante para fornecer aminoácidos, colesterol bom, peptídeos e outras substâncias para que o sistema hormonal funcione adequadamente. A prática de exercícios físicos, a vida emocional equilibrada, hábitos saudáveis colaboram notavelmente para que o organismo tenha harmonia, como se fosse uma orquestra. “As doenças surgem em conseqüência de desequilíbrios que se instalam insidiosamente no mundo físico, emocional e espiritual. Outro fator é a degradação ambiental que tem gerado agentes tóxicos, poluentes que são genericamente chamados de xenobióticos. As doenças femininas citadas são oriundas dos desvios comportamentais, do meio ambiente inóspito, da alimentação de má qualidade etc. Quando as doenças são diagnosticadas precocemente pode-se deter a sua evolução fazendo uma desintoxicação corrigindo os maus hábitos, saneando o meio ambiente e estimulando a prática de técnicas bioenergéticas como o Yoga. Lamentavelmente quando a endometriose pélvica, os fibro-miomas e os cistos estão em estágio avançado, não resta outra alternativa senão o tratamento cirúrgico”, avalia.

*Artigo de Patrícia Ribeiro, Prana Yoga Journal.


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