YOGA E MEDITAÇÃO EM CAMPINAS

21 de mai de 2015

Kleshas: As raízes do sofrimento


Por Vanessa Malagó

Em nosso artigo anterior sobre os Yoga Sutras (Sofrimento e Libertação), vimos o que Patanjali nos fala sobre o sofrimento, experiência que é comum a todos os seres humanos.

Longe de ser uma visão pessimista de mundo, essa reflexão sobre o sofrimento tem o intuito de nos despertar para sua existência, fornecendo-nos ferramentas para compreendê-lo e uma via prática para superá-lo. Entender as fontes da dor é o primeiro passo a fim de eliminar o sofrimento. 

Em sânscrito a palavra que usamos para nos referir à causa do sofrimento é “klesha”, que pode ser interpretado também como aflição ou obstáculo. Os kleshas são impedimentos dentro de nós mesmos. Nas palavras de Annie Carpenter os kleshas fazem da mente um campo minado para a frustração, o apego, a fantasia, o medo e o desapontamento”.

Patanjali nos apresenta cinco fatores que são fundamentais na atividade psicológica humana e que são os causadores da dor.  O primeiro deles é Avidya, traduzido na maioria das vezes como ignorância, mas não no sentido comum de falta de conhecimento. A ignorância a que se refere Avidya é a ignorância quanto a nossa verdadeira natureza. Avidya é tomar aquilo que é transitório, como eterno, aquilo que é impuro como puro, aquilo que é irreal como real.

Para o yoga, essa parte de cada um de nós que é eterna e imutável é conhecida como purusha, cit , atman ou drashta. Essas palavras traduzem conceitos como espírito, consciência, alma, aquele que vê através da mente.  Avidya é o erro fundamental que resulta em todo o sofrimento humano: confundir os conteúdos da mente com a consciência.

Em relação a isso Rohit Mehta (1995) comenta: “No decorrer do tempo, o homem constrói uma natureza adquirida. Esta é o produto das reações e resistências da mente. A natureza adquirida assume tal importância que se sobrepõe completamente à natureza original. Na verdade, conhecemos apenas a natureza adquirida. Não é preciso dizer que ela é a natureza do hábito”.
E complementa: “Considerar a natureza do hábito como a original é Avidya ou ignorância. O adquirido obviamente é impuro, pois é feito de acréscimos. É o produto das acumulações psicológicas e do tempo. Considerar algo que foi formado pelo tempo como Eterno é incorrer na maior das ilusões.”

Asmita é o segundo klesha apontado por Patanjali. A palavra Asmita é derivada de asmi, que significa literalmente “eu sou”. Asmita pode ser traduzido como o senso do eu, individualidade.

Segundo Kate Holcombe (2012) Asmita acontece quando você se identifica com as partes de si que mudam – da sua mente ao seu corpo, aparência, ou emprego – em vez de se identificar com o lugar quieto e perene dentro de si. É quando você acredita erroneamente que sua forma física, trabalho ou sentimentos sejam o que você é. Como se essas coisas o definissem, em vez de reconhecer que seu verdadeiro eu – quem você é no seu âmago – é imutável”.

Ela complementa: “O desafio, e a lição desse sutra, é que mesmo que seja ótimo apreciar e valorizar todos esses aspectos de si mesmo, se você se identifica muito de perto com os aspectos mutáveis de si, você se expõe a decepção e sofrimento.”

O terceiro e quarto klesha são como duas faces da mesma moeda. São eles Raga e Dvesa. Raga pode ser traduzido como atração ou apego e Dvesa, como repulsão ou aversão.

Raga acontece sempre que há um objeto de prazer e a mente anseia por ele, desejando ter essa experiência prazerosa mais e mais vezes. Raga nos mantém insatisfeitos mesmo quando o que queremos está diante de nós, quer pela tentativa de retê-lo ou pelo impulso de querer mais e mais. Quando não podemos ter algo que desejamos muito, ou pior ainda, quando isso é tirado de nós, Raga pode causar inquietação e desespero. Pode ser o caso por exemplo, de uma relação amorosa que se dissolve ou  sofrimento de uma lesão bem no momento em que você está motivado a ir para a academia todos os dias.

 Dvesa é a repulsão natural que se sente em relação a qualquer coisa que represente uma fonte de dor ou infelicidade para nós. Os dois são expressões do princípio do prazer, pois evitar a dor é também parte da busca de prazer.

Tanto Raga como Dvesa são respostas emocionais que alteram a capacidade de ver o mundo ao nosso redor com clareza, pois nos mantém constantemente presos às nossas experiências passadas. Ao longo do tempo vamos nos definindo por essa coleção de experiências, construindo uma identidade que reflete todas esses apegos e aversões.

“É reconhecido o condicionamento da mente, que acontece quando estamos sob o domínio de qualquer atração ou repulsão muito forte, mas poucas pessoas têm qualquer ideia da distorção produzida em nossa vida por atrações e repulsões menos relevantes, ou o quanto nossa vida é condicionada por elas.” (Taimini, 2002)

Ao aplicar essas emoções de experiências passadas para compreender o momento presente colocamos um filtro sobre a nossa capacidade de ver as coisas como elas realmente são. Sem um esforço ativo, esses filtros podem se tornar cada vez mais espessos, alterarando nosso juízo e nossa capacidade de responder com clareza.

O ciclo das aflições se fecha com Abhinivesha, o forte desejo de viver ou o medo da morte, que como afirma Patanjali, domina até mesmo os mais sábios. Esse medo da morte não é necessariamente o medo da morte física, mas o medo da mudança, da impermanência, que é uma constante em nossas vidas. Como afirma Rohit Mehta (1995) “Sentimo-nos seguros apenas no ambiente da continuidade; Abhinivesha é assim, uma busca de segurança .” Ele prossegue: “A vida é eternamente dinâmica e, portanto, sempre descontínua. Abhinivesha é um esforço para colocar o dinâmico em um estrutura estática; é um esforço para conferir uma qualidade de continuidade àquilo que é descontínuo.”

O desafio envolvido em Abhinivesha é o de aceitar a inevitabilidade da impermanência. Essa aceitação pode ser praticada enfrentando com leveza as pequenas mortes que lidamos no dia-a-dia. Pode ser na maneira com que lidamos com nosso próprio envelhecimento ou na forma que recebemos as mudanças que surgem em nossa vida.
Nas palavras de Rohit Mehta (1995) “Aquele que não descobre momentos de morte no processo da vida, não sabe o que é viver”.

Tendo examinado esses cinco kleshas podemos perceber o quão profundamente eles se entrelaçam, formando um círculo vicioso. Do desejo de continuidade surgem as atrações e repulsões, mecanismos de defesa que buscam proteger aquilo que é o resultado das acumulações do tempo. Dessas experiências e acumulações, criamos uma identidade, que reflete todos esses apegos e repulsas. Assim, a visão da nossa real natureza vai ficando cada vez mais ofuscada. Essa falsa identificação reforça ainda mais o desejo de continuidade, iniciando-se novamente o ciclo.

Como você se sente quando algo que tinha planejando não saiu exatamente como gostaria? Por que você se sente triste se alguém fala algo ruim sobre você? Por que você fica tão frustrado quando perde algo que desejava muito?
A auto-observação e a reflexão sobre situações como essas, que acontecem em nossa vida diária, permitem que gradualmente nos tornemos mais conscientes dos kleshas e de como operam. Descobrir as raízes do sofrimento é o primeiro passo para nos libertar.

Abordaremos em nossos próximos artigos como Patanjali propõe que rompamos esse ciclo. Enquanto isso, convidamos você a refletir sobre essas questões. Se você passou por alguma situação dolorosa recente, tente se lembrar de como reagiu. Seja nas suas práticas de meditação ou durante suas atividades diárias, observe em que momentos você se encontra apegado ao passado ou ao futuro. Você pode também pegar caneta e papel e experimentar escrever sobre suas preferências e aversões, ou relacionar aspectos sobre si mesmo os quais você valoriza.

Boas práticas e até o próximo artigo!

Referências:

- CARPENTER, Annie – The Kleshas: Working with the Obstacles”, Aula gravada em 2012, disponível em:http://wanderlust.com/journal/free-yoga-class-annie-carpenter-kleshas-working-obstacles/

- HOLCOMBE, Kate – Artigo: Mistaken Identity , Yoga Journal -  Nov/2012, Versão em português disponível em: http://www.yogajournal.com.br/sabedoria/real-identidade/

- MEHTA, Rohit – Yoga a Arte da Integração – 1ª. Ed., Editora Teosófica – 1995

- TAIMNI – A ciência do Yoga (Comentários sobre os Yoga-Sutras de Patanjali à luz do Pensamento Moderno) –  2ª. Ed., - 2001